Índia inicia safra kharif de 2026 sob ameaça de El Niño e chuvas abaixo da média

Choques climáticos atrasam o plantio de algodão e oleaginosas, forçando o país a elevar importações de soja e manter veto às exportações de açúcar

Publicado em 1 de julho de 2026 às 11:52
Pedro

A temporada de safra kharif de 2026 na Índia teve início sob forte pressão em virtude das chuvas de monção abaixo do normal e das condições emergentes do El Niño, que ameaçam a produção de commodities importantes como arroz, algodão e oleaginosas no país. O Departamento Meteorológico da Índia projetou que a precipitação sazonal ficará em 90% da média de longo prazo, indicando uma probabilidade de 84% de chuvas deficientes ou abaixo do normal à medida que o El Niño se desenvolve, o que pode interromper a oferta de exportações agrícolas para o mercado global. Embora a monção de sudoeste, responsável por cerca de 70% da precipitação anual indiana, tenha atingido Kerala no início de junho e avançado por outros estados, as chuvas acumuladas até o meio do mês rodavam 32% abaixo do normal. A região noroeste registrou o déficit mais severo, com 91% abaixo da média, enquanto a região central marcou 49% de déficit, restando apenas a península sul com níveis 4% acima da média devido às fortes condições iniciais de instabilidade.


Esse cenário climático adverso já se reflete no ritmo das atividades de campo no país. O plantio totalizou 7,257 milhões de hectares no início de junho, registrando uma queda de 3% em comparação ao mesmo período do ano anterior, com destaque para as áreas destinadas ao algodão, que despencaram 23%, e para as oleaginosas, que recuaram 19%, incluindo quedas expressivas no amendoim e gergelim. Em contrapartida, as áreas de arroz apresentaram crescimento de 8%, as leguminosas avançaram 49% e o milho subiu 41%. Agências internacionais alertam para uma probabilidade de 63% de que este El Niño atinja um status muito forte, figurando entre os episódios climáticos mais potentes desde 1950, atuando de forma mais severa entre julho e setembro. Como o Dipolo do Oceano Índico permanece neutro, o país enfrentará o impacto de seca do fenômeno sem qualquer influência moderadora, somando-se às fortes ondas de calor registradas entre abril e maio, quando os termômetros superaram os 45°C.


Diante desses riscos hídricos e do fato de os reservatórios operarem com cerca de 30% da capacidade total, o governo indiano já identificou quase 200 distritos altamente vulneráveis e preparou planos de contingência para o setor agropecuário. O Fórum Econômico Mundial alertou que a formação deste padrão climático representa um choque sistêmico para os mercados globais, com potencial para afetar os fluxos do comércio agrícola e as cadeias de suprimento ao longo do biênio de 2026 e 2027. Para conter a escalada de preços e os prêmios nos farelos locais, a Índia projeta elevar suas importações de soja para 700 mil toneladas no ano comercial de 2025-26. Adicionalmente, as restrições e a proibição governamental sobre as exportações de açúcar devem ser estendidas até o ciclo de 2026-27, uma vez que o país priorizará o abastecimento de seu mercado doméstico e a produção interna de etanol diante das quebras projetadas no campo.

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