Estados Unidos aceleram busca por terras raras e minerais críticos no Brasil em meio à disputa geopolítica global

Parceria estratégica mira reservas de fácil extração e atrai bilhões em investimentos, enquanto autoridades alertam para a urgência do país em ditar as próprias regras no mercado

Publicado em 10 de junho de 2026 às 22:15
Pedro

Os Estados Unidos desejam atuar em "velocidade de dobra" (warp speed) para assegurar o acesso às vastas reservas de terras raras e outros minerais críticos do Brasil, de acordo com informações reveladas durante um seminário sobre minerais críticos realizado ontem em Brasília pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). O diretor executivo do Eurasia Group para as Américas, Christopher Garman, afirmou que o governo norte-americano está totalmente "pronto para a ação" (shovel ready) e focado em aprofundar sua parceria estratégica com o Brasil, com especial atenção aos elementos de terras raras. Segundo o executivo, que acompanha de perto as operações da Casa Branca, os Estados Unidos identificaram o Brasil e a Malásia como parceiros prioritários devido a uma vantagem geológica fundamental: as reservas desses países são encontradas majoritariamente em argila iônica, um material que apresenta um processo de extração e beneficiamento muito mais simples e barato do que o de outros depósitos ao redor do mundo.


A escolha do Brasil como alvo principal dessa ofensiva comercial já se traduz em movimentos práticos e bilionários no mercado. Garman destacou que o apetite dos EUA fica evidente em ações recentes, como a aquisição da produtora brasileira de terras raras pesadas Serra Verde por US$ 2,8 bilhões, uma transação que ocorreu logo após a liberação de US$ 560 milhões em financiamentos direcionados à própria Serra Verde e à futura produtora Aclara Resources. No campo político, o analista garantiu que o presidente Donald Trump continuará a enxergar o Brasil de forma estritamente pragmática, guiado pelo imenso valor de seus ativos minerais. Ele acrescentou que nem a recente reintrodução de tarifas norte-americanas sobre produtos brasileiros, nem a classificação de grupos do crime organizado local como terroristas, sinalizam qualquer mudança na postura de Trump em relação a Brasília, tratando-se apenas de "decisões paralelas que já vinham sendo elaboradas há muito tempo".


O ex-embaixador e atual secretário de Clima, Energia e Meio Ambiente do Brasil, Mauricio Lyrio, também participou do painel e concordou com a avaliação, destacando o peso do cenário global nas negociações. Lyrio apontou que a geopolítica dita atualmente a maior parte das decisões relacionadas aos minerais críticos brasileiros, e que esses ativos ganham ainda mais valor sempre que conflitos e crises internacionais surgem em outras regiões, graças às boas relações diplomáticas que o Brasil mantém com todas as nações da ONU. Ele ressaltou que o país tem a capacidade única de selar acordos de cooperação sobre qualquer mineral com qualquer nação, o que se torna um trunfo indispensável na atual conjuntura mundial.


Ambos os painelistas convergiram na ideia de que a alta qualidade das reservas minerais brasileiras, aliada à forte expertise técnica do país em mineração, confere ao Brasil uma vantagem imensa nas mesas de negociação, mas alertaram que o fator tempo é crucial. Apesar de abrigar a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o Brasil ainda responde por menos de 1% da produção global total desses insumos. Para Lyrio, o país tem uma oportunidade colossal pela frente, mas precisa adotar um forte senso de urgência para capitalizar sobre ela de forma efetiva. A mensagem final das autoridades foi clara: no mercado global de transição energética e alta tecnologia, o Brasil precisa assumir o protagonismo para ditar os seus próprios termos, em vez de apenas reagir às vontades e necessidades de outras potências.

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