Vendas de máquinas agrícolas caem 15,8% no Brasil enquanto importações avançam 42% em 2026
Retração atinge tratores e colheitadeiras sob pressão de juros altos e endividamento rural; compras externas são lideradas por modelos asiáticos de baixa potência e ganham espaço em licitações públicas.
As vendas de máquinas agrícolas no varejo brasileiro registraram retração de 15,8% de janeiro a agosto de 2026, totalizando 27 mil unidades comercializadas frente a 32 mil em igual período de 2025, de acordo com levantamento da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). No sentido oposto, as importações do setor cresceram 42% no acumulado de janeiro a setembro, somando 11,2 mil unidades, enquanto as exportações nacionais avançaram 9%, alcançando 5 mil unidades enviadas ao exterior.
O recuo comercial no mercado interno atingiu as principais categorias de maquinário pesado: as vendas de tratores de rodas somaram 25,5 mil unidades nos primeiros oito meses do ano, baixa de 14,1% ante as 29,7 mil unidades apuradas no mesmo intervalo do ano anterior, ao passo que as colheitadeiras registraram queda de 39,4%, passando de 2,3 mil para 1,4 mil equipamentos. Todas as faixas de potência de tratores apresentaram retração, com recuo de 8,3% nos modelos 4x2 abaixo de 100 HP, contração de 22,4% no segmento de 100 a 180 HP, declínio de 30,3% nas máquinas acima de 180 HP e retração de 40,9% nos tratores com tração 4x4.
A entidade atribui a perda de demanda ao aperto financeiro enfrentado pelo produtor rural, motivado pela desvalorização dos preços das commodities agrícolas desde janeiro de 2025, pelo endividamento setorial e pelo encarecimento do crédito sob a taxa Selic mantida em 13,75% ao ano. Segundo dados do Banco Central reunidos pela Anfavea, o índice de inadimplência no crédito rural para pessoas físicas atingiu 9,7% em agosto.
Em contraste com a retração doméstica, o ingresso de maquinário estrangeiro acelerou fortemente, com as importações de tratores da China crescendo 117% de janeiro a setembro para cerca de 5,2 mil unidades, enquanto a Índia forneceu volume similar após alta de 11%. Juntos, os dois países concentraram 93% dos tratores importados pelo Brasil no período, com 90% das compras externas focadas em modelos de baixa potência (até 100 HP), destacando-se a faixa de 50 a 100 HP, que reuniu 6.412 unidades e avançou 56%.
A expansão de produtos importados também se consolidou nas compras governamentais: dados do Portal Nacional de Contratações Públicas (PNCP) indicam que, das 10.603 máquinas agrícolas e rodoviárias licitadas em 2025 (movimentando R$ 3,7 bilhões), equipamentos de origem chinesa responderam por 33,5% dos volumes físicos e 26% dos recursos, somando cerca de R$ 960 milhões. No recorte estrito de tratores agrícolas licitados (3.318 unidades), os modelos importados abocanharam 65% das contratações, ante 35% de fabricação nacional.
Diante desse cenário, o presidente da entidade, Igor Calvet, defende a aplicação do critério de custo total de propriedade nas licitações — ponderando suprimento de peças de reposição, assistência técnica, manutenção e durabilidade operacional —, além de exigir das importadoras os mesmos padrões de conformidade técnica e responsabilidade pós-venda aplicados à indústria local. A indústria automotiva nacional alerta ainda para a pressão de custos industriais, apontando que tarifas de importação de 20% sobre resinas e polímeros aliadas a medidas antidumping projetam uma alta de 4% a 7% nos componentes plásticos utilizados nas linhas de montagem brasileiras.
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