Trava logística no Mar Negro represa grãos na Rússia e derruba cotações até 44% abaixo do custo no sul do país
Produtores operam no vermelho em Rostov e Krasnodar; lucro do setor agropecuário russo encolhe 17,4% até maio e ameaça plantio de inverno.
Os entraves operacionais para o escoamento de grãos através dos portos do Mar Negro vêm repercutindo com severidade crescente no mercado interno russo, represando grandes volumes da safra 2026 dentro das fronteiras nacionais e exercendo forte pressão baixista sobre os preços. Nas regiões do sul do país, como Rostov e Krasnodar — historicamente dependentes do canal marítimo meridional —, o cereal está sendo negociado a cotações entre 33% e 44% abaixo do ponto de equilíbrio econômico (break-even), gerando prejuízos diretos aos produtores a cada tonelada comercializada.
O quadro de perdas financeiras é amplificado pelos elevados custos de produção da safra 2026: o trigo foi orçado entre 12.000 e 13.500 rublos por tonelada (US$ 137 a US$ 154/t ou R$ 697 a R$ 784/t), a cevada entre 11.200 e 12.800 rublos/t (US$ 128 a US$ 146/t ou R$ 651 a R$ 743/t) e o milho entre 13.500 e 15.200 rublos/t (US$ 154 a US$ 173/t ou R$ 784 a R$ 880/t). Paralelamente, os fretes das lavouras até os armazéns e silos no sul encareceram de 25% a 36%, ao passo que propriedades sem estrutura própria de estocagem desembolsam entre 1.500 e 2.000 rublos adicionais por tonelada (US$ 17 a US$ 23/t ou R$ 87 a R$ 117/t), somando-se à alta nos gastos com óleo diesel, fertilizantes minerais e juros da dívida.
Essa deterioração das margens operacionais já afeta o balanço consolidado do agronegócio russo. No acumulado de janeiro a maio de 2026, os lucros das empresas agrícolas recuaram 17,4% em base anual, somando 142,8 bilhões de rublos (aproximadamente US$ 1,63 bilhão ou R$ 8,30 bilhões), enquanto a fatia de companhias em situação de prejuízo avançou 6,2 pontos percentuais, atingindo 28,5% do total. A alavancagem financeira média no setor de grãos subiu para o intervalo de 3,8 a 4,2 vezes o Ebitda, e os encargos do serviço da dívida já superam a geração de caixa operacional em 45% das fazendas de médio porte. Diante da descapitalização e da impossibilidade de liquidar estoques de forma rentável, produtores alertam para riscos iminentes à semeadura das culturas de inverno e cobram intervenções estatais urgentes, incluindo compras públicas de excedentes em larga escala e a prorrogação integral de todas as linhas de crédito rural.
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